AUTOESTIMA: “Só me sinto bem arrumada” e outros enganos do coração

Muitas mulheres enfrentam uma batalha silenciosa com a própria imagem. Há uma voz interna persistente que sussurra: você não é boa o bastante, bonita o bastante, magra o bastante, espiritual o bastante, organizada o bastante. Essa voz gera ansiedade, cansaço e uma sensação constante de fracasso.

A pergunta fundamental é: onde está o problema, e qual é a solução bíblica para ele?

1. A origem da identidade

Deus projetou o ser humano para se conectar com outros. Desde o nascimento, um bebê contempla os olhos da mãe e busca resposta para a pergunta: quem sou eu? Em condições ideais, a criança começa a se perceber como alguém amado, protegido, valorizado e importante. Esse é o plano de Deus: que pais ofereçam amor incondicional, preparando o coração da criança para compreender o amor divino.

Lamentavelmente, nenhuma família é perfeita. Mesmo os melhores pais se cansam, erram e agem de forma pecaminosa. Nenhuma criança escapa da vida familiar sem marcas em sua autoimagem. Além dos pais, a identidade continua sendo formada na interação com irmãos, colegas, professores, amigos e, mais tarde, cônjuges e chefes. O ser humano olha nos olhos das outras pessoas e pergunta: quem você diz que eu sou?

O problema surge quando a identidade se constrói sobre bases instáveis. Quando o valor pessoal depende de fontes externas, e não daquilo que Deus diz, a autoimagem se desloca como areia, gerando instabilidade e ansiedade.

2. A condição natural do ego humano

A Bíblia adverte que os seres humanos, de forma automática e inconsciente, trocam a verdade de Deus por uma mentira e adoram a criatura em lugar do Criador (Rm 1.25). O apóstolo Paulo, ao tratar do orgulho em 1Coríntios 4.6, usa uma palavra grega reveladora: physioō, que significa “superinflado”, “inchado”, “distendido além do tamanho normal”. A imagem é de um órgão que recebeu ar demais e está prestes a explodir. Essa é a condição natural do ego humano.

Timothy Keller[1], refletindo sobre essa metáfora paulina, identifica quatro características do ego em seu estado natural depois da Queda: ele é vazio, dolorido, atarefado e frágil. Vazio, porque há um buraco no centro que nenhuma coisa criada consegue preencher. Dolorido, porque algo terrivelmente errado faz com que o ego esteja sempre chamando atenção para si mesmo. Atarefado, porque trabalha incansavelmente para compensar o vazio por meio da comparação e da vanglória. E frágil, porque qualquer coisa superinflada corre perigo iminente de estourar.

Isso explica por que complexo de superioridade e complexo de inferioridade são, no fundo, o mesmo problema. A pessoa com complexo de superioridade está superinflada e corre o risco de ser desinflada; a pessoa com complexo de inferioridade já está desinflada. Mas ambas dependem de ar, não de substância sólida. Ambas construíram sua identidade em bases frágeis.

Há seis áreas em que as pessoas costumam buscar seu senso de valor e importância: popularidade, desempenho, posses, poder, posição social e perfeccionismo.

Popularidade

Desejar ser aceita e amada é natural. O problema surge quando a aprovação humana se torna a base da identidade. Jesus experimentou a inconstância das opiniões: a mesma multidão que o elogiava (Mc 7.37) também ouviu seus familiares dizerem que ele estava fora de si (Mc 3.21). Jesus, porém, não permitiu que essas vozes o definissem. Sua identidade estava firmada na palavra do Pai: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Lc 3.22). Depender da aprovação alheia transforma a mulher em alguém que busca agradar pessoas, e não a Deus.

Desempenho

Há satisfação em completar tarefas e realizar objetivos. Contudo, quando o valor pessoal depende da capacidade de conquistar e realizar, a incapacidade de resolver tudo gera vergonha e desvalorização. Paulo, na prisão, aprendeu a enxergar a si mesmo de forma diferente. Ele considerou perda tudo o que havia conquistado, “por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus” (Fp 3.7-9). Quando Deus coloca alguém em um período de limitação, isso não significa fracasso ou falta de valor. O ser humano é mais do que aquilo que realiza a cada dia.

Posses

Não há nada de errado em apreciar coisas boas. Porém, possuir ou não possuir algo não define quem a pessoa é. A publicidade constantemente promete valor por meio do consumo: “Você merece isso”. Na melhor das hipóteses, essa é uma solução temporária. As posses são para deleite, mas nunca foram planejadas para definir o ser humano. Paulo aprendeu a viver contente tanto na fartura quanto na escassez.

Poder

Todo ser humano deseja algum poder sobre a própria vida. Porém, quando ter poder define a identidade, surge a tentação de usá-lo mal: para ameaçar, manipular e controlar. Jesus alertou seus discípulos: “Quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros” (Mc 10.42-44). Ser poderoso não define alguém como mais digno ou merecedor. E aqueles que se sentem impotentes não devem concluir que Deus não os vê ou não se importa. Deus vê e trará justiça (Sl 9.9-10; Sl 10.14-18).

Posição social

Ocupar uma posição de liderança pode sugerir sabedoria e competência, mas isso é apenas parte de quem a pessoa é. Ela ainda tem fraquezas e áreas pecaminosas que precisam ser reconhecidas para uma autoimagem verdadeira. Além disso, aqueles em posições elevadas nunca se sentem verdadeiramente seguros; a lealdade pode mudar rapidamente. Algumas mulheres se sentem inferiores por não ocuparem a posição desejada: esposa, mãe, líder. Mas a ausência de determinada posição não é uma declaração sobre o valor da pessoa. Nunca se deve confundir dor com identidade.

Perfeccionismo

Essa mentalidade diz constantemente: “Se você não for perfeita, não pode ser boa o bastante ou amada”. A perfeccionista acredita que qualquer outra pessoa pode errar e receber graça, mas ela, não. A única forma de se sentir bem consigo mesma é alcançar o impossível. Quando falha, o resultado é vergonha, ódio de si mesma e desespero. Essa é uma armadilha sem saída. A dificuldade de aceitar a própria falibilidade revela a expectativa de ser perfeita.

3. O caminho da cura: olhar para cima

A resposta para curar uma autoimagem negativa não está em tentar arduamente ser boa o bastante, nem em conseguir mais popularidade, mais realizações, mais posses. Um sentimento saudável em relação ao eu não acontece quando se foca em si mesmo. Todos esses caminhos conduzem ao orgulho ou a mais vergonha e medo.

Deus tem algo muito melhor. A história da mulher samaritana (Jo 4.3-42) ilustra isso. Ela sabia que não era boa o suficiente e nunca poderia ser. Teve cinco casamentos fracassados e vivia com um homem que não era seu marido. Não era popular; as mulheres da comunidade a evitavam. Era samaritana, desprezada pelos judeus. Não tinha poder nem posição. Mas um único encontro com Jesus mudou completamente a forma como ela via a si mesma.

Jesus a encontrou sozinha no poço, ao meio-dia, um sinal de quão isolada e rejeitada ela era. Ele violou convenções culturais ao conversar com ela, oferecendo-lhe água viva. Jesus falou sobre teologia, vida, relacionamentos e Deus. Ele revelou que era o Messias. Nunca focou nas falhas dela, embora estivesse consciente de todas. Ele viu além do gênero, da raça, do status e da vida desregrada. Ele viu a mulher que havia criado para ser.

Na conversa com Jesus, ela começou a se enxergar de forma diferente. Não era mais apenas uma mulher rejeitada, sem importância e imoral. Era alguém em um diálogo que mudava sua vida, com o Messias que a conhecia completamente e a tratava com dignidade e respeito. A conversa despertou facetas havia muito esquecidas: curiosidade, interesse teológico, fome pela verdade. Ela começou a ver a si mesma como Jesus a via: valorosa e amada. Libertou-se de quem pensava ser e do que os outros pensavam dela. Libertou-se para se tornar quem Deus a criou para ser.

O resultado foi extraordinário. Seu semblante mudou de tal forma que, quando proclamou “Venham ver um homem que me disse tudo o que tenho feito”, as pessoas a ouviram. As mesmas pessoas que a desprezavam perceberam algo diferente nela. Muitos vieram a Cristo por causa de suas palavras (Jo 4.39-42).

4. Firmando a identidade em Deus

A segurança de ser profundamente amada e aceita, apesar de falhas, fraquezas e pecados, nunca pode vir inteiramente da família de origem, do próprio esforço, da popularidade, do desempenho, das posses, do poder, da posição social ou do perfeccionismo. Esses fundamentos são instáveis demais para dar o que o coração deseja. Também não pode vir das outras pessoas, que eventualmente falharão e decepcionarão. A segurança verdadeira só pode vir daquele que é perfeito, que conhece perfeitamente e ama incondicionalmente: Deus.

A Bíblia declara: “Enviou-lhes a sua palavra, e os sarou” (Sl 107.20). Jesus é a Palavra viva de Deus (Jo 1.14). A mudança de olhar para si mesma ou para os outros para buscar definição é crucial para a cura. O salmista afirma: “Em ti está a fonte da vida; na tua luz vemos a luz” (Sl 36.9). Só é possível se enxergar claramente quando se olha para Deus, e não para si mesma.

O autoconhecimento genuíno começa quando se olha para Deus e se percebe como ele está olhando de volta. Basear o conhecimento de si no conhecimento que Deus tem consolida na realidade. O que Deus pensa sobre nós não é apenas mais importante do que o que pensamos sobre ele; é também mais verdadeiro do que aquilo que pensamos sobre nós mesmas.

5. O que Deus diz

A Escritura revela o que Deus pensa a respeito de seu povo:

“Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste” (Sl 8.3-6).

O Salmo 139 descreve a intimidade do conhecimento divino: 

“Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto; de longe penetras os meus pensamentos. […] Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe. […] Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias. […] Que preciosos para mim, ó Deus, são os teus pensamentos!”

E Paulo proclama: 

“Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.6-8).

E ainda: 

6. Crer, não apenas conhecer

Talvez a mulher que lê essas passagens já as conhecia e, ainda assim, nada mudou internamente. Ela continua se sentindo indigna e mal-amada. A peça que falta não é mais informação, mas fé. Quando se lê o que Deus diz na Bíblia, são apenas palavras em uma página, ou são recebidas no coração com fé?

A Bíblia ensina que é a incredulidade, e não a falta de conhecimento, que impede de experimentar a verdade do que Deus diz. Satanás conhece muitas verdades sobre Deus, mas não crê nelas. Aprender a verdade não transforma; crer nela, sim. Jesus disse que a obra que Deus deseja é crer (Jo 6.28-29). Ele sabe que haverá sempre uma luta interior para confiar no que Deus diz mais do que no barulho e nas mentiras na própria cabeça.

Jesus também alertou que Satanás é mentiroso e tenta continuamente confundir sobre o que é verdade a respeito de Deus, sobre si mesmo e sobre como a vida realmente funciona (Jo 8.44). Uma das maiores mentiras é que é possível ser boa o suficiente sem Deus, ou que o sentimento de ser digna é crucial para uma autoimagem saudável. Pelo contrário, Deus afirma que crer nele e descansar no que ele diz é o segredo para a mudança transformadora.

O apóstolo João escreveu: “E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele. Nisto em nós é aperfeiçoado o amor, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança; pois, segundo ele é, também nós somos neste mundo. No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor” (1Jo 4.16-18).

Quando se conhece e descansa no amor e na aceitação incondicionais de Deus, há liberdade para abandonar o medo de não ser boa o suficiente. O amor dele não depende de sermos ou não boas o bastante. É dom gratuito, não algo que se pode merecer ou ganhar. Que alívio! Se não se pode ganhá-lo nem merecê-lo, também não se pode perdê-lo. O amor de Deus não depende de nós.

7. A liberdade do autoesquecimento

O apóstolo Paulo revela em 1Coríntios 4.3-4 uma postura surpreendente: “Pouco me importa se sou julgado por vós, ou por qualquer tribunal humano; de fato, nem eu julgo a mim mesmo. Pois, embora eu esteja consciente de que não há nada contra mim, nem por isso me justifico, pois quem me julga é o Senhor”. Paulo não busca sua identidade na opinião dos outros, e também não a busca em si mesmo. Ele entendeu que tentar elevar a autoestima seguindo critérios próprios ou alheios é uma armadilha.

A solução proposta pelo evangelho é radicalmente diferente tanto da cultura tradicional (que combatia o orgulho com vergonha) quanto da cultura moderna (que combate a baixa autoestima inflando o ego). Como observa Keller, a humildade que brota do evangelho “não é pensar em mim mesmo como se eu fosse mais nem pensar em mim mesmo como se eu fosse menos; é pensar menos em mim mesmo”[2]. É a liberdade que vem do autoesquecimento.

Isso significa ter um ego satisfeito, não inflado. A pessoa verdadeiramente humilde não é aquela que se odeia ou se ama; é aquela cujo ego funciona como os dedos dos pés: simplesmente exercem sua função sem implorar por atenção. Essa pessoa não se sente arrasada pelas críticas, mas também não as ignora arrogantemente. Ela ouve a crítica como oportunidade de mudança, porque não precisa mais se defender.

Como Paulo alcançou esse estágio? Ele descobriu que, no evangelho, o veredicto vem antes do desempenho. Em todas as outras cosmovisões, o desempenho deve levar ao veredicto: se a pessoa for boa o suficiente, receberá aprovação. Isso significa que todos os dias ela está sob julgamento, buscando o veredicto que nunca chega. Mas no evangelho, o veredicto já foi pronunciado. Jesus foi julgado em nosso lugar, recebeu a condenação que merecíamos, para que não precisássemos enfrentar mais nenhum julgamento. “Portanto, agora já não há condenação alguma para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). O julgamento acabou. A mulher em Cristo pode deixar o tribunal.

8. Verdades para lembrar

A transformação acontece quando se crê e permanece na verdade daquilo que Deus diz. O trabalho árduo não é mudar a si mesma, lutando para ser boa o suficiente, mas crer no que Deus diz. Uma vez que se crê, as demais mudanças vêm naturalmente. Estas são verdades para declarar diariamente:

  • Eu tenho valor e importância para Deus (Mt 10.31; 12.12).
  • Eu sou profunda e completamente amada por Deus (Jo 17.23; Rm 5.8; 8.31-39).
  • Eu sou perdoada e recebi de Deus um registro limpo; ele deseja me trazer a um relacionamento próximo com ele (Sl 103.8-12; Jo 5.24; At 3.19; 13.38-39; Ef 1.7; Cl 1.13-14).
  • Eu pertenço a ele; ele me adotou em sua família (Jo 14.18; Rm 8.15-17; Gl 4.6-7; Ef 1.4-5; 1Jo 3.1).
  • Minha vida tem sentido e propósito; eu não sou um acidente (Jo 15.9; Rm 5.10-11; 8.1-39; 1Co 1.18; Ef 2.4-10).

As mentiras nas quais se acreditou por tanto tempo frequentemente têm raízes profundas e não são removidas de uma só vez. A Palavra de Deus ensina que a transformação acontece pela renovação da mente (Rm 12.2). Portanto, é crucial praticar o falar a verdade para si mesma, de forma que não se esqueça de quem realmente é (Cl 1.13-23).

9. Diagnosticando a vaidade: quando o ego ocupa o lugar de Deus

Até aqui, tratamos principalmente da mulher que se sente inferior e indigna. Porém, há outro lado do problema da autoestima: a vaidade excessiva. Como já foi dito, orgulho e a baixa autoestima são, na verdade, dois lados da mesma moeda: ambos colocam o eu no centro, onde somente Deus deveria estar. A mulher que se deprecia constantemente e a mulher que se exalta continuamente cometem o mesmo erro fundamental: pensam demais em si mesmas.

C. S. Lewis, em sua análise sobre o orgulho, observou que ele é competitivo por definição. As pessoas não têm orgulho simplesmente de ser ricas, espertas ou bonitas; têm orgulho de ser mais ricas, mais espertas ou mais bonitas que as outras. O orgulho é o prazer de se sentir superior. Quando encontramos alguém mais bem-sucedido, mais inteligente ou mais bonito, o que tínhamos perde a graça. Isso revela que nunca houve alegria verdadeira naquilo que possuíamos, apenas orgulho.

A Escritura adverte: “Não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Rm 12.3). Esse equilíbrio bíblico exige honestidade consigo mesma. A vaidade é sutil e frequentemente se disfarça de virtude. Seguem alguns indicadores que ajudam a diagnosticar se o ego está ocupando um lugar indevido:

a. O espelho consome tempo excessivo

A preocupação com a aparência é natural e, em certa medida, saudável. Porém, quando o tempo gasto diante do espelho ultrapassa o tempo gasto diante da Palavra de Deus, algo está desordenado. A mulher piedosa deve examinar: quanto tempo dedico ao cuidado exterior em comparação ao cultivo interior? Pedro instrui que o adorno da mulher “não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no uso de joias de ouro, na compostura de vestes, mas o ser interior, o coração, no incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus” (1Pe 3.3-4).

b. “Eu me arrumo porque me sinto bem”

Essa é uma justificativa comum e aparentemente inocente. A Bíblia não condena o cuidado com a aparência; pelo contrário, a mulher virtuosa de Provérbios 31.22 “faz para si cobertas; suas vestes são de linho fino e de púrpura”. Ester se preparou com esmero antes de se apresentar ao rei (Et 2.12). A beleza é dom de Deus e pode ser cultivada com gratidão. Contudo, a justificativa “me sinto bem” merece exame cuidadoso, pois pode esconder motivações que o coração não quer admitir.

Primeiro, é preciso distinguir entre o prazer legítimo de estar apresentável e a necessidade de estar impecável para se sentir segura. A mulher que não consegue sair de casa sem maquiagem perfeita, que se sente ansiosa quando não está “arrumada”, ou cuja disposição depende de como avalia sua aparência no espelho, revela que seu senso de valor está atrelado à imagem exterior. O “sentir-se bem” tornou-se, na verdade, uma prisão disfarçada de liberdade.

Segundo, vale perguntar: para quem me arrumo? A resposta honesta frequentemente revela motivações mistas. O coração humano é enganoso (Jr 17.9), e raramente nossas motivações são puras. Arrumar-se pode ser expressão de zelo, dignidade e respeito próprio. Mas pode também ser tentativa de atrair olhares, despertar inveja, ou provar algo para si mesma e para os outros. A mulher sábia examina seu coração: o prazer vem de glorificar a Deus com os dons que ele deu, ou vem de alimentar o ego com admiração?

Terceiro, o “sentir-se bem” pode mascarar idolatria. Quando a aparência se torna fonte de identidade e segurança, ela ocupou o lugar que pertence somente a Deus. A mulher idólatra da aparência vive em constante ansiedade: o corpo envelhece, as rugas aparecem, o peso muda. Sua paz depende de algo que está em permanente declínio. Jesus perguntou: “Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura?” (Mt 6.27). A beleza física não pode ser fundamento de paz, porque é passageira. “Enganosa é a graça, e vã, a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada” (Pv 31.30).

Há um teste simples: a mulher que se arruma com coração livre consegue também estar despreocupada quando não está arrumada. Ela não entra em crise se precisar sair sem maquiagem, não se esconde quando está “de cara lavada”, não se sente menos valiosa em roupas simples. Seu senso de valor não oscila com a aparência do dia. Já a mulher cuja identidade está presa à imagem não suporta ser vista “menos que perfeita”. Isso revela que o “me sinto bem” é, na verdade, “só me sinto bem assim”, e esse é um sinal de que a aparência se tornou ídolo.

O evangelho liberta dessa escravidão. A mulher em Cristo pode cuidar de sua aparência com gratidão e simplicidade, sem que isso defina seu valor. Ela pode se arrumar com alegria e também pode estar desarrumada sem vergonha, porque sua identidade está firmada em algo que não muda: o amor eterno de Deus por ela em Cristo. Ela não precisa da aparência para se sentir bem; ela já está bem, porque pertence ao Senhor.

c. A comparação é constante

A vaidade se alimenta de comparações. A mulher vaidosa avalia continuamente se está mais bonita, mais bem vestida, mais magra ou mais elegante do que as outras. Essa mentalidade competitiva revela um coração que busca superioridade em vez de amor ao próximo. Paulo adverte: “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos” (Fp 2.3). A comparação constante é sintoma de um coração que ainda não descansa em Cristo.

d. Os elogios são necessidade, não gratidão

Há diferença entre receber um elogio com gratidão e precisar de elogios para se sentir bem. A mulher vaidosa depende da aprovação alheia; quando não recebe o reconhecimento esperado, fica irritada, triste ou ressentida. Ela busca confirmação externa porque seu coração não está firmado na aprovação de Deus. O salmista pergunta: “De quem terei medo? O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei?” (Sl 27.1). Quem descansa em Deus não precisa da validação humana para ter paz.

e. A crítica é insuportável

A pessoa humilde recebe correção com gratidão, pois sabe que precisa crescer. A pessoa vaidosa, porém, reage com defensividade, mágoa ou raiva diante de qualquer crítica, mesmo quando construtiva. Provérbios ensina: “O caminho do insensato aos seus próprios olhos parece reto, mas o sábio dá ouvidos ao conselho” (Pv 12.15). A incapacidade de ouvir correção revela um coração inflado de si mesmo. Como observa Keller, “a pessoa que se esquece de si mesma não se sente ferida, não fica mal quando criticada. A crítica não acaba com ela”. Isso porque seu ego não está inflado, mas satisfeito em Cristo.

f. As conversas giram em torno de si mesma

A mulher pode avaliar suas conversas: quanto tempo falo sobre mim, minhas conquistas, meus problemas, minhas opiniões? E quanto tempo dedico a ouvir genuinamente os outros, interessando-me por suas vidas? O amor “não se vangloria, não se ensoberbece” (1Co 13.4). A conversa egocêntrica é termômetro de um coração voltado para si.

g. A inveja corrói por dentro

Quando outra mulher é elogiada, promovida ou abençoada, a reação interior revela muito. A vaidade produz inveja: um ressentimento surdo diante do bem alheio. Tiago adverte: “Onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins” (Tg 3.16). A mulher piedosa se alegra com as que se alegram (Rm 12.15), pois sua segurança não está em ser melhor que as outras. A mulher com o ego transformado pelo evangelho consegue admirar a conquista de outra da mesma forma que admira o nascer do sol: simplesmente encantando-se com o que é belo, sem precisar que seja dela.

h. O serviço escondido é desprezado

A vaidade busca holofotes. A mulher vaidosa prefere ministérios visíveis e evita tarefas que ninguém verá. Jesus ensinou: “Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.3-4). O coração que resiste ao serviço anônimo ainda está preso à aprovação humana.

i. O arrependimento é superficial

A vaidade dificulta o arrependimento genuíno, pois admitir pecado fere o orgulho. A mulher vaidosa minimiza suas falhas, justifica seus erros ou transfere a culpa. O arrependimento bíblico, porém, envolve concordar com Deus sobre a gravidade do pecado e abandoná-lo. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). A dificuldade persistente em confessar pecados específicos pode indicar um coração orgulhoso.

j. Conselhos práticos para mortificar a vaidade

Primeiro, cultive a prática diária de meditar na grandeza de Deus. Quanto mais o coração contempla a majestade divina, menor o eu se torna. Os serafins cobrem o rosto diante do Senhor (Is 6.2); quanto mais a criatura deveria se humilhar! 

Segundo, pratique regularmente o serviço secreto: faça algo por alguém que nunca saberá que foi você.

Terceiro, discipline-se a ouvir mais do que falar, interessando-se genuinamente pelos outros. 

Quarto, receba críticas como oportunidade de crescimento, pedindo ao Espírito Santo que revele pontos cegos. 

Quinto, alegre-se publicamente com as vitórias alheias, treinando o coração para vencer a inveja. 

Sexto, estabeleça limites saudáveis para o tempo gasto com aparência e redes sociais, redirecionando esse tempo para a comunhão com Deus e o serviço ao próximo.

A cura para a vaidade é a mesma que para a baixa autoestima: contemplar a Cristo. Diante da cruz, não há espaço para orgulho, pois ela revela quão pecadores somos. Mas também não há espaço para desespero, pois ela revela quão amados somos. O evangelho humilha o orgulhoso e exalta o abatido, colocando ambos no mesmo lugar: aos pés de Jesus, recebendo graça imerecida. Esse é o devido lugar do ego: não no centro, mas prostrado diante daquele que é digno de toda glória.

Conclusão

O conhecimento de Deus traz amor; o conhecimento de si mesmo traz humildade. A consequência da humildade é uma autoimagem saudável e uma adequada autoestima. O olhar se volta para Cristo, e não para o mundo, para os outros ou para si mesma, em busca de identidade. Tudo de bom vem de Deus e é para a glória dele. Quando se descansa nessa afirmação, não há medo nem orgulho; há gratidão e segurança.

O caminho adiante é conhecer esse maravilhoso Deus que nos ama tanto que nos deu poder através de seu Filho Jesus para viver uma vida que vai além de agradar a si mesma ou de se realizar. É a partir desse ponto que se pode saber quem realmente se é. E a partir desse ponto, é possível amar os outros profundamente, encontrar sentido e viver cada dia com propósito.


[1] KELLER, Timothy. Ego transformado: a humildade que brota do evangelho e traz a verdadeira alegria. Tradução de Eulália Pacheco Kregness. São Paulo: Vida Nova, 2014.

[2] Keller, 2014, p. 12.

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